Mulher, mulherá, mulherão
Mulher: verbo que se conjuga no futuro do presente
Esse é o sexo que vive no futuro, que nunca é, mas que sempre poderá ser... melhor. A mulher sempre será melhor depois. Depois de fazer depilação, depois do novo corte, depois da balayage, depois da escova no salão, depois da manicure, depois da maquiagem, depois de encontrar seu grande amor, depois da TPM, depois da análise, depois da dieta funcionar, depois da academia, depois da roupa nova, depois da massagista, depois da lipoaspiração, depois do botox, depois da plástica. Mulher é sexo inacabado.
Talvez a incompletude que Freud remeteu à falta de pênis esteja na falta de muito mais. Na falta da última novidade da tecnologia cosmética, do clareamento dental, do spray que deixa o corpo todo bronzeado, do blush que dá saúde ao rosto, do pó com efeito bronzeador... Novidades de hoje e de amanhã.
Talvez mulher não seja um substantivo, mas um verbo que quer ser adjetivo. Mulher, infinitivo; mulherão, futuro do presente. E o mais contraditório é que a mulher vive lutando contra o tempo. O tempo só a deixa melhor quando é espera de algo a ser feito, mas quando é o tempo que vai agir, vem o desespero. Com o tempo, vem a plástica e os cuidados passam a ser mais invasivos e doloridos. Mas o que importa que antes do melhor venha o pior, a dor?
Às vezes as soluções de beleza não funcionam; às vezes a mulher perde a hora do salão ou tem que sair às pressas e não pode cuidar do visual. Essa é uma mulher triste, que se sente quase pelada. Eu não condeno as mulheres, sou uma delas e estou atenta a mim, cuidando e reformando aqui e ali. Somos todas obras de igreja, sempre com alguma coisa por fazer. Mas não devemos exagerar, ou viraremos clones de um ideal que não tem a cara de ninguém. E até um clone tem que ter algo de autêntico.
Nesse sentido, sugiro que as mulheres de tempos em tempos, quase como uma brincadeira, deixem algo em si mais ao natural, pode ser as unhas sem esmalte (mas com aspecto de cuidadas, lixadas, limpas), os cabelos mais à vontade, com algumas ondas ou fios fora do lugar (que mal há nisso? Fica mais selvagem; mas não os deixe engordurados...), o rosto sem maquiagem, ou apenas com uma ou duas coisas (só rímel e blush, só batom e lápis nos olhos, só um brilho e filtro solar...), figurino discreto e mais casual (se bem que essa é a tendência, muito chinelo, bermuda, mini-saia acompanhados de camiseta de algodão branca e uma sacolona de sarja ou palha; na praia, um biquíni estampado e um chapéu grande de palha ou branco).
Aproveite o verão e caia no despojamento, sem deixar para ser a mulher que você quer ser só amanhã. Seja essa mulher hoje, inclusive nas atitudes. Fale o que tem que ser dito, faça o que tem que ser feito e viva o instante, que logo vai passar, mas sem a angústia do fim, porque quem realmente sabe viver o momento não fica temendo o pior, faz o melhor agora e deixa o depois chegar. Porque a vida pode ser lugar para sabedoria. E o verdadeiro prazer está no que vivemos com qualidade, com entrega, com tranqüilidade.